Day after

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Em qualquer instante, sem aviso prévio, podemos ter nossa vida atropelada por um caminhão Scania, aquele de rodas duplas. Um estrondo avança e deixa você devastado em meio a fumaça e poeira. À volta apenas seu mundo destruído, um cenário de escombros.
Para alguns esse caminhão foi a morte de um filho, outros sua demissão sumária, pode ser uma traição, falência material, sua casa incendiada. A primeira reação é não acreditar, ficar parado ali mesmo. É comum a frase: “Não acredito que isso está acontecendo!”. A pessoa deseja ardentemente estar em outra realidade. O futuro torna-se inconcebível, falar de esperança é uma piada de mau gosto.

Muitos não declaram o desejo de morrer, mas ficam torcendo para que o dia seguinte não amanheça. As saídas são singulares, cada pessoa escolhe reiniciar do ponto que suporta. É exatamente nessa hora nefasta que é necessário olhar para dentro e fazer um inventário do que absorveu da vida até ali. O espólio do seu interior irá determinar o compasso da sua recuperação. Por isso, passar pela vida evitando desafios é perigoso. Uma catástrofe (que Deus nos livre) irá lhe encontrar com imunidade baixa, você sucumbe. O desastre pode lhe encontrar de mãos vazias e a possibilidade que resta é ser um zumbi, fingindo que vive entre as pessoas.

As aprendizagens dessa experiência lhe tornará capaz de encarar dignamente sua dor. Os desavisados e despreparados vão seguir insistindo no ódio e revolta contra a vida. Equivocados acreditam honrar a sua dor repetindo para qualquer pessoa como foi injusto o que lhe aconteceu. Virar o bife na frigideira pode ser bem difícil mas é imprescindível. A nova pessoa, inicialmente será um remendo de lembranças doloridas, ajuda alheia e a mágica de Deus.

Já vi pessoas que adotam um ritual diário como recurso curativo (meditação matutina, caminhada, cursos de artesanatos etc…), que representa um apoio constante, único aspecto sobre o seu controle no meio de tantas incertezas. Alguns adotam permanecer horas numa igreja vazia, contemplando a vida, recompondo cada célula sua que foi destruída. É de conhecimento geral as pessoas que após o seu baque criam uma ONG para defender questões relacionadas a sua dor, transformam-se em ativistas.

Eu queria agora ter algo bom para dizer, bom o suficiente para redimir o sofrimento dessas pessoas. Mas a saída é colocar mãos à obra, esperar a poeira baixar e empunhar uma pá retirando a areia e pedras que cobriram toda a sua vida. Infelizmente não dá para ficar sentado à beira do caminho. Abrir uma estreita passagem que possibilite apenas o seu acesso de lá para cá, uma via para ir e vir. Então dia após dia dar continuidade, tornando o seu acesso à vida cada vez mais viável, cada vez mais amplo. Sem ilusões, porque esse trabalho será para o resto da sua vida.

Você nunca mais será igual. Talvez seja uma pessoa melhor. O que ocorreu não será esquecido jamais, não existe cura para trombadas desse porte, mas pode se descobrir uma vida possível.

As pessoas que suportaram atravessar a própria tempestade e resistiram até chegar a outra margem irradiam uma admirável paz. Experimente estar ao seu lado e usufrua da força pacífica que elas podem nos brindar.
* Humbelina Gurgel – escritora macaense