Amar a Compreensão

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Uma das formas de incompreensão se tece através dos preconceitos. A incompreensão pode dizer respeito aos modos como estreitamos ou não os laços com pessoas, culturas, religiões, ideias, valores e crenças que diferem das nossas.

Os preconceitos são gerados por tudo aquilo que possa diferir de nossos pontos de vista. Ao longo da história da humanidade vemos que as inúmeras guerras, mesmo aquelas travestidas e nomeadas como ‘Guerras Santas’ e as tantas outras guerras que atravessaram o século XX e ainda faz correr sangue, dor e tristezas pelo planeta no século XXI, traz nas suas entranhas o preconceito, o desejo de poder sobre os outros, as outras culturas, o desejo de submeter os outros e as outras culturas aos seus pontos de vista. A ambição, a inveja, o orgulho, a vaidade movem os corações e as mentes daqueles que cultivam guerras e só fazem deteriorar a vida no planeta!

No entanto, existem aqueles que desejam compreender os outros modos de vida, respeitando-os! Compreender com a potência do pensar e do sentir. Compreender outros mundos, outras maneiras de ser fazendo a aliança e a comunhão entre a potência de refletir e a potência de se aproximar de outras superfícies existenciais distintas das nossas. Assim, as superfícies de pertencimento transcultural se tece! Estas são as superfícies onde somos tocados pelas diferentes formas de ver e sentir o mundo.

São superfícies afetivas, onde somos tocados por outros modos de ver a vida e, com efeito, tocamos os outros mundos com os nossos modos de viver! Esta composição afetiva se dá pela abertura entre os mundos. Quando nos abrimos para compreender como os outros se fazem, pensam a vida, constroem seus espaços sociais, culturais e religiosos, passamos a integrar aquilo que tão diferente [pelo menos uma pequena parte] em nossos mundos.

A arte de compreender… Este é o amor pela vida e por tudo o que existe! Compreender é a arte de uma filosofia de vida onde podemos integrar outros mundos aos nossos. Do mesmo modo como podemos nos alimentar crescendo e vitalizando o nosso corpo com alimentos nutritivos, podemos, por sua vez, encontrar em outras culturas, em outras crenças, em outros modos de viver, a novidade que poderá fazer crescer a nossa existência, vitalizando-a!

Somente pela novidade é que a nossa existência pode crescer, se complexificando e saindo dos vícios, das cristalizações, dos preconceitos e julgamentos nos quais e pelos quais nos aprisionamos.

O amor em compreender a vida é um dos grandes objetivos da filosofia de Spinoza, filósofo do século XVII! Filosofia de um amor pela vida, de uma alegria que é conquistada pelo aumento de potência, de compreensão dos outros modos de vida. Amor em conhecer outros modos existentes: será sempre antes se esforçar em se aproximar de outras pessoas, evitando-se os preconceitos e os julgamentos. Compreender é se aproximar. Daí o grande exercício para a contemporaneidade é a abertura às diferenças. Desenvolver as capacidades nas crianças, nos jovens, nos adultos em compor comunidades afetivas de onde pode-se extrair práticas mais sensíveis e próximas entre as pessoas na família, nas relações de vizinhança, nas relações comunitárias, na cidade… pelo país… pelo planeta!

O amor em compreender o outro é o esforço em se evitar o caminho mais fácil que é dizer: “isto não me pertence”. A humanidade vem reinscrevendo esta lógica durante séculos. Dizer “isto não me pertence” será educar os sentidos, as percepções, os modos de sentir, pensar e agir voltados à indiferença, à insignificância, afirmando que o que somente importa é a vida voltada a si mesmo, ao seu grupo, à sua religião, ao seu partido político e ponto final.

Amar a vida será, por conseguinte, desenvolver a capacidade de se aproximar daqueles que mais detestamos, buscando compreender seus mundos e como eles se constituíram ao longo das suas vidas. A complexão afetiva dos seus mundos só pode ser explicada pela potência do entendimento, da proximidade, a partir de uma superfície onde nos deixamos tocar por seus pontos de vista, sem rigidez, sem repulsão, mas, sim, pelo toque sensível e pelo respeito que é o de ‘amar as diferenças’.

Abraços,

Paulo-de-Tarso