Das incertezas tão certeiras

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Nos apegamos às tantas certezas… Nos agarramos com tanta força…
Uma vida feita pelo desejo das garantias… A vida feita como um trilho de trem…
Trilho que nos indica o caminho do início ao fim… Nossa sensibilidade, nossas percepções passam a ver a vida assim… Viver num trilho… Ser um trilho… Prefiro as trilhas… Aprendi isso com uma amiga… As trilhas nos abrem outros caminhos imprevistos… Viver o imprevisível… Compreender que as certezas se agarram ao ego…

Excesso de histórias, excesso de memórias… As trilhas nos levam à descoberta de outras paisagens não previstas…Ser a trilha… Contatar o imprevisível… Ser o artesão do contato não previsto… Ser o artesão de novas gestalts, de novas formas de ser em movimento… Gestaltung… nossas formas de existência na dimensão infinitiva do acontecimento… Ser verbo… Contatar a musicalidade das nossas formas tão incertas de ser… Se abrir às virtualidades do presente… Caminhar nas superfícies dos instantes fugazes… Música, poesia, filosofia… elas nos salvam dos trilhos para sermos trilhas … Ser… simplesmente ser o fluxo paradoxal dos caminhos tão incertos da vida!

Como viver a vida em meio às tantas certezas? Como viver uma vida singular, uma vida que seja construída por desejos singulares? Como se desviar dos conceitos, projetos e tantos ideais já preestabelecidos e organizados para que possamos consumi-los? Cristalizamos os nossos modos de compreender a vida seguindo as convenções, ao que nos é transmitido como os caminhos mais certos e certeiros para nossas vidas. Construir o caminho de cada dia, construir o caminho para encontros vitalizadores com as pessoas será desenvolver as capacidades de fazer contato. Uma qualidade de contato consigo, com um mundo imaterial que nos habita. Uma qualidade de contato sensível onde saímos da condição de ovelhas que pastam pelos caminhos que seguimos cegamente. Num instante acreditamos que uma decisão é a mais acertada. Num outro instante após, sentimos que aquela crença não era tão verdadeira… podemos pensar de outras maneiras aquela situação.

A sabedoria do tempo. Quando fazemos contato com as nossas certezas e percebemos que estas mais nos agarram ao desejo do controle, ao desejo de não viver as incertezas, ao desejo de medir a vida através de réguas, de ideias que mais nos distanciam do viver… sentimos que a vida está passando e não nos ocupamos com ela… nos ocupamos com outras coisas nas quais acreditamos ser o sentido de viver. Mas, qual é o sentido de viver? Qual é a certeza que podemos ter em nossas escolhas que, em muitas ocasiões futuras, são modificadas, transformadas?

Viver a paradoxal experiência das incertas certezas. Viver a paradoxal vivência de que podemos rever os nossos conceitos, nossas decisões, nossas crenças, nossos valores… mas, precisaremos ter a coragem e a grande virtude [como uma grande capacidade, no sentido da filosofia de Spinoza] de desenvolvermos uma ciência afetiva, uma ciência dos nossos modos de contatar as nossas emoções. Estas não nascem do nada. Elas nascem do jogo de afetações permanente com o mundo. Elas nascem do mundo que está em nossas memórias, em nossas recordações, em nossas marcas históricas, em nossos desejos, em nossos sonhos, em nossos projetos de vida, em nossas ilusões, em nossas desilusões.
Desenvolver a virtude [ou a essência singular e sempre em ato] de contatar quais formas de ser aparecem em formas de emoções a cada contato [quer seja com uma lembrança, quer seja com uma situação aqui e agora] será se encontrar com partes que fazem parte de uma multidão de partes que nos explicam… que nos compõem.

Compreender as emoções: caminho para superarmos o desejo das certezas.