A democracia e a poesia

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Platão detestava a democracia e os poetas. Para ele a democracia é o melhor dos piores regimes, isto é, as pessoas falam, falam, falam, mas não sabem sobre o que falam. Para Platão a cidade deveria ser governada em nome de ideias claras e, para este projeto, o filósofo será o melhor governante. Platão defendia a política, mas ela seria coordenada por reis filósofos. Platão também detestava os poetas, pois estes mais confundem que explicam as coisas.

Pois é… Platão não era um homem da complexidade. Ele tentou em sua teoria das ideias claras e distintas produzir uma visão de mundo, de vida e de homem super-racionais, uma sociedade que deveria extinguir os afetos, as paixões humanas e tudo o que fosse indeterminado, imprevisível e polêmico. Platão não queria homens polêmicos que debatessem os caminhos da cidade na praça pública. Ele desejava com a sua teoria filosófico-política uma cidade super planejada por alguns homens especialistas que dariam o tom da cidade perfeita.

Mas Platão esqueceu que aquilo que é primeiro são os afetos, as emoções, os sentimentos que temos pelas coisas da vida, pelo mundo que nos tece e nos alimenta. A vida é a obra complexa que se faz aqui-e-agora, a todo instante em cada vida, em cada rua, em cada comunidade, em cada família, em cada ambiente de trabalho. Se a vida é uma obra complexa que se compõe permanentemente diremos que a vida é poética. A palavra poesia vem do grego: poiésis. Poiésis significa criação. A vida está sendo criada por você neste instante em que lê estas palavras. Você poderá sentir que a sua mente e corpo encontrarão pontos em comum com aquilo que você está lendo neste momento e, por sua vez, poderá encontrar sentimentos discordantes.

Esta é a poesia da vida, este é o movimento criativo da vida: nos encontramos com pessoas, textos, músicas, alimentos, com a natureza, com outros animais, com tantas outras experiências e, através destes encontros, alimentamos a nossa existência. Será através do outro (e este outro pode ser um livro, uma vez que foi uma pessoa que o escreveu) que compomos para nós mesmos uma outra paisagem de vida. Esta paisagem poética, criativa sempre é construída com outras pessoas.

Estudando o filósofo Gilbert Simondon em meio às arvores e paisagens do Museu da República da cidade do Rio de Janeiro, vendo ao mesmo tempo a imagem da minha pequena Nicole que tinha seus 7 anos a brincar com os pássaros, com as folhas caídas no chão, tirando fotos dos pequeninos acontecimentos que se juntavam a nós, aprendi sobre o conceito de ‘alma’ na Grécia antiga. Apresento neste momento apenas uma das acepções do conceito grego de ‘alma’. Alma vem do grego ânima, sendo aquilo que nos anima! A cada encontro animamos nossa vida, o sentido da vida, compondo-nos com outros seres, outras pessoas, outras ideias, com outros sentimentos. Somos, cada um de nós, uma coexistência: mesmo de olhos fechados poderemos ver e sentir a presença do mundo, das outras pessoas através das imagens que recolhemos dos nossos encontros e que nos envolvem com suas lembranças misturadas com os desejos de outros encontros num futuro seja próximo ou distante.

A democracia é pura poesia quando vemos o movimento da composição social se fazer no dia-a-dia, como uma prática cultivada permanentemente e não de vez em quando. Assim temos a dimensão criativa da democracia: através da união dos afetos e dos sentimentos e da conexão entre as mentes poderemos construir os caminhos da vida democrática! Esta proposição já fora dita por Spinoza no século XVII. Este bem comum será desejado por todos, apesar das suas diferenças, em nome de uma cidade movida pelo espírito da liberdade! Poesia democrática, poiésis, criação de uma vida democrática que se faz no dia-a-dia: Pop-democracia.

Abraço,

Paulo de Tarso