Infecção rara em paciente de 27 anos só melhorou após o uso do antiviral Tecovirimat (imagem ilustrativa) Reprodução/Freepik

Inoculação do vírus nos olhos é capaz persistir por até dois meses, gerando uma reação inflamatória que pode prejudicar seriamente a visão

epidemia de mpox ocorrida em 2022 segue sendo estudada pela ciência e causando desdobramentos. Entre eles, uma reação nos olhos que chamou a atenção de cientistas brasileiros.

Os achados foram publicados em dezembro no periódico JAMA Ophthalmology por especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do grupo Fleury, da Santa Casa de São Paulo, do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de São Paulo (USP) e da Clínica de Olhos Moacir Cunha, na capital paulista.

No artigo, os autores relatam o primeiro caso de um paciente com Mpox (abreviação de monkey pox, nome da doença em inglês) que apresentou comprometimento ocular grave da córnea e da úvea, nome dado à camada média do olho, que inclui estruturas como a íris.

Tudo aconteceu em agosto de 2022, quando o homem de 27 anos compareceu à Clínica de Olhos Moacir Cunha queixando-se de sensibilidade à luz, dor e baixa visão no olho esquerdo. Ele havia testado positivo para varíola dos macacos, mas quando procurou o atendimento oftalmológico os sintomas clássicos da doença, como as lesões na pele, já haviam passado.

O diagnóstico foi de ceratite e uveíte: respectivamente, inflamação da córnea e inflamação e da úvea. O caso só apresentou melhora depois do uso do antiviral Tecovirimat, liberado no Brasil em agosto de 2022. O remédio, que já estava em uso no exterior, chegou por aqui dias após o homem buscar ajuda. Ele começou a receber o tratamento no 42º dia após o início dos sintomas.

Imagens do primeiro caso de inflamação ocular por Mpox — Foto: JAMA Ophthalmol

Imagens do primeiro caso de inflamação ocular por Mpox — Foto: JAMA Ophthalmol

Os especialistas suspeitam que, pela demora no acesso ao antiviral, outras formas da infecção pelo vírus da varíola dos macacos estejam se manifestando no Brasil, como a ocular. A agilidade é fundamental para que os casos não evoluam.

“Após o início do tratamento correto, a recuperação do paciente foi rápida. No terceiro dia ele expressava uma melhora subjetiva. Do quarto para o quinto dia, já era possível ver um avanço realmente importante das características apresentadas e a ceratite foi regredindo”, conta a oftalmologista Luciana Finamor, principal autora do estudo, que acompanhou o caso na Clínica Moacir Cunha.

Santuário imunológico

Outros casos semelhantes foram chegando à clínica em São Paulo. Em todos eles, embora febre, mal-estar e lesões cutâneas curassem, nos olhos a condição tinha uma piora persistente. Testes PCR realizados diretamente na superfície ocular denunciavam o vírus da Mpox em plena atividade ali.

Segundo Finamor, isso ocorre pelo fato de o olho ter um mecanismo de defesa que impede a chegada de anticorpos na região. “Chamamos o olho de santuário imunológico. Muitos microrganismos têm o órgão como uma forma de reservatório, ficando muitas vezes escondidos no local, pois ali o anticorpo não chega, mesmo em pessoas imunocompetentes”, explica a médica a GALILEU.

Finamor conta que, nos casos acompanhados pela clínica, houve situações em que a doença ocular persistiu por até dois meses. E ela pode ser tardia, manifestando-se dias depois dos sintomas mais conhecidos.

A grande preocupação, segundo a especialista, é que além do prejuízo à visão, existe uma comunicação muito próxima do olho com o sistema nervoso central. “Nós acreditamos que esse vírus tem potencial de causar uma dor neuropática”, exemplifica a médica.

Alerta

Outro ponto que chamou a atenção dos médicos no caso do homem de 27 anos foram lesões na pálpebra. Provavelmente por coçar a região, o vírus acabou se espalhando para outras áreas oculares.

Por isso, o cuidado redobrado com a higiene das mãos é uma das formas de evitar o contágio. “A pessoa sabendo disso e tendo uma lesão na pálpebra, pele ou face, ela já tem que estar atenta para não ficar colocando a mão ou esfregando”, orienta Finamor.

Atualmente, a equipe acompanha 10 casos que foram tratados com Tecovirimat — todos homens, com idades entre 30 e 42 anos. No grupo há aqueles que tiveram acesso rápido ao fármaco e os que demoraram para receber o antiviral e sofreram consequências graves.

É o caso de um homem que chegou à clínica após ter passado por dois oftalmologistas que não consideraram a hipótese de Mpox. Esses médicos recomendaram uso de corticoide que, segundo Finamor, pode agravar a situação. Por ter ficado dois meses sem o tratamento correto, será necessário fazer um transplante de córnea.

O paciente, aliás, só considerou a hipótese de o problema ocular ter sido causado por varíola dos macacos após ver o estudo publicado no JAMA Ophthalmology. “Precisamos divulgar esses casos para que inclusive os médicos comecem a ter essa percepção. Estamos aprendendo junto com a doença, ainda estamos avaliando muitas hipóteses e muitas pesquisas estão sendo realizadas”, conclui a oftalmologista.

Por Gabriela Garcia, com edição de Luiza Monteiro/ site Revista Galileu