Segundo investigações históricas e judiciais apresentadas no documentário “Usina Cambahyba: Das Cinzas da Tortura à Terra Prometida”, a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes, foi utilizada para a incineração de corpos de opositores políticos durante a ditadura militar. É a partir dessa denúncia que se constrói o novo filme dirigido por Marcelo Fonseca, que também conta com análises do historiador Lucas Pedretti. Em breve, o documentário será exibido em Campos dos Goytacazes e em Macaé.

A narrativa reúne relatos de trabalhadores que vivenciaram o cotidiano da usina, evidenciando as relações de poder e as dinâmicas sociais que estruturavam o espaço; além de depoimentos de familiares de vítimas da ditadura, trazendo à tona a dimensão humana da violência e o impacto prolongado do desaparecimento forçado. “Sem corpo, não há rito. E essa ausência de materialidade, somada à negação do que aconteceu no próprio país, perpetua a violência”, afirma o diretor.

Cláudio Guerra, ex-agente do DOPS do Espírito Santo, também confessa ter participado do transporte e da destruição de corpos na Usina Cambahyba. De acordo com esses relatos, ao menos 12 corpos de vítimas da ditadura teriam sido levados ao local e incinerados, evidenciando um método sistemático de ocultação de provas e eliminação de vestígios da violência estatal.

Para Marcelo, o filme nasce da urgência de enfrentar lacunas que seguem abertas na memória coletiva do país. “A memória é um campo de disputa e no Brasil ainda se questiona a própria existência da ditadura. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, mais de 200 pessoas seguem desaparecidas sob responsabilidade do Estado, sem que suas famílias tenham conseguido enterrar seus mortos”, frisa.

O filme aponta que a Usina Cambahyba não operava de forma isolada, mas integrava uma engrenagem mais ampla da repressão. A narrativa estabelece conexões entre o DOI-CODI, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio de Janeiro, e a chamada Casa da Morte, em Petrópolis, revelando como os chamados “porões da ditadura” também se estendiam ao interior do estado. “Nessa produção, procuramos evidenciar a existência de uma rede articulada de violência estatal, conectando centros urbanos e territórios rurais. Trata-se de um dos primeiros trabalhos audiovisuais a reunir e explicitar essas conexões de forma estruturada no interior do Estado do Rio”, destaca Marcelo.

O documentário dialoga diretamente com recomendações da Comissão Nacional da Verdade ao contribuir para o direito à memória e à verdade, ampliar a visibilidade sobre o destino de desaparecidos políticos e aprofundar o debate público sobre a responsabilidade do Estado durante a ditadura. “O filme existe porque há uma demanda social por reparação, memória e justiça, e porque essa lacuna segue aberta não só para as famílias, mas para o
país”, reflete o diretor.