Em setembro de 1968, o Maracanãzinho lotado recebeu a final do Festival Internacional da Canção (FIC), um dos eventos culturais mais importantes do país naquele período politicamente turbulento. O Brasil vivia sob o endurecimento do regime militar, poucos meses depois da morte do estudante Edson Luís e da Passeata dos Cem Mil. A censura apertava o cerco e a juventude buscava, na música, uma forma de expressar aquilo que não podia dizer abertamente.

Naquele ambiente carregado, duas canções chegaram à final do FIC, com enorme expectativa. Uma delas foi “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque; uma obra delicada, poética, construída com metáforas e referências ao exílio. Já “Pra não dizer que não falei das flores”, do então quase desconhecido Geraldo Vandré, era direta, urgente, quase um chamado à ação. Seu refrão — “vem, vamos embora, que esperar não é saber” — ecoava como um grito coletivo contra o autoritarismo militar.

Quando o júri anunciou “Sabiá” como vencedora, o ginásio explodiu em vaias. A plateia reagiu com indignação. Muitos gritavam “marmelada, marmelada!”, convencidos de que a canção escolhida não representava o momento político do país. Vandré tentou, em vão, acalmar o público, mas só conseguiu silêncio quando dedilhou os primeiros acordes de sua música, que foi acompanhada pela plateia cantando delirantemente.

A escolha do júri refletia uma visão mais tradicional, conservadora, talvez mais cautelosa ou covarde, em um tempo em que qualquer crítica explícita ao regime podia custar caro. “Sabiá” era bela, mas parecia distante da realidade dura que o público vivia. Já “Caminhando”, como ficou conhecida, traduzia com clareza o sentimento de revolta e esperança que tomava conta das ruas. Não por acaso, pouco depois, a canção seria censurada e Vandré acabaria no exílio.

Passadas mais de cinco décadas, o julgamento popular daquela noite se confirma. “Sabiá”, apesar de sua qualidade artística, tornou-se uma lembrança tênue na história da música brasileira. Já a canção de Vandré atravessou gerações, transformou-se em símbolo de resistência e permanece viva sempre que o país enfrenta momentos de tensão política. É cantada em manifestações, lembrada em livros, estudada como documento histórico e reconhecida como um dos maiores hinos de liberdade já produzidos no Brasil.

A plateia do Maracanãzinho mostrou que entendia o espírito do momento melhor do que o júri. Ela não queria apenas beleza, queria e exigia coragem. Queria uma música que dissesse, sem rodeios, aquilo que tantos brasileiros sentiam e não podiam expressar. E foi exatamente isso que Vandré entregou.

Hoje, olhando para trás, fica claro que aquela multidão tinha razão. A história não guardou “Sabiá”. Guardou “Caminhando”. Guardou o protesto. Guardou a voz coletiva que, naquela noite de 1968, se levantou para dizer que a arte também é instrumento de liberdade e que, quando o povo canta junto, nenhuma censura consegue silenciar.

Agora, sugiro ouvir, no Spotify, a gravação original de Vandré, que me inspirou a escrever esse texto.

Por: Alfeu Valença – Original do Portal Tempo Real