O agronegócio brasileiro costuma se apresentar como o grande motor da economia nacional, responsável por parcela expressiva do PIB, das exportações e da geração de divisas. A imagem de “celeiro do mundo” reforça a ideia de um setor pujante, moderno e autossuficiente. No entanto, por trás desse discurso de força, existe uma dependência estrutural que raramente aparece nas campanhas publicitárias: o denominado Plano Safra.

Esse plano, um dos maiores programas de crédito subsidiado do planeta, injeta, anualmente, centenas de bilhões de reais em financiamentos agrícolas com juros inferiores aos praticados no mercado. Daí surge o questionamento: se o agro é tão lucrativo, por que não se financia sozinho? Por que o Estado precisa assumir parte do risco e oferecer condições especiais que nenhum outro setor econômico recebe?

A resposta começa pelo fato de que o agronegócio não é homogêneo. A narrativa do “agro gigante” costuma esconder que boa parte dos produtores brasileiros não são grandes conglomerados exportadores, mas agricultores familiares, responsáveis por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Esses produtores operam com margens estreitas, enfrentam maior vulnerabilidade climática e têm dificuldade de acessar crédito privado. Sem juros subsidiados, muitos não conseguiriam sobreviver, o que afetaria diretamente o abastecimento interno.

Além disso, o risco agrícola é estruturalmente alto. Nenhum outro setor depende tanto de variáveis incontroláveis como chuva, pragas e oscilações internacionais de preço. Bancos privados evitam esse tipo de exposição ou cobram juros proibitivos para compensá-la. O Estado, então, intervém para evitar que a produção caia, que o preço dos alimentos dispare ou que a inflação se descontrole, prejudicando a população financeiramente mais carente.

Assim, o Plano Safra funciona como uma espécie de seguro coletivo, uma proteção que garante previsibilidade mínima em um ambiente naturalmente imprevisível.

Há ainda um componente estratégico. O Brasil escolheu, ao longo das décadas, um modelo de desenvolvimento baseado no aumento de produtividade e na competitividade internacional. O Plano Safra é parte dessa engrenagem. Ele sustenta o modelo agroexportador ao garantir crédito barato, estimular investimentos e manter o país competitivo em mercados globais altamente disputados. Sem esse apoio, o custo do financiamento subiria, a produção poderia encolher e, fatalmente, os produtos encareceriam. O Brasil perderia espaço no comércio internacional.

Tudo isso é muito verdadeiro, mas não elimina alguns críticos do programa, que insistem em perguntar: se o setor é tão lucrativo, por que não reinveste seus próprios ganhos para reduzir a dependência do Tesouro? Para alguns economistas, seria socialmente mais justo que o agroexportador internalizasse seus riscos e liberasse recursos públicos para áreas como saúde, educação e infraestrutura urbana. Outros, menos radicais, defendem uma transição gradual, preservando o apoio à agricultura familiar, mas reduzindo subsídios para grandes produtores e estimulando mecanismos privados de seguro rural, crédito verde e fundos de investimento.

Esse é um assunto interessante que poderia ser colocado nas entrevistas e debates entre os candidatos à presidência da República, substituindo as perguntas que mais interessam ao Ministério Público do que aos eleitores, como tem acontecido frequentemente.

Por: Alfeu Valença – Original do Portal Tempo Real