Eu sempre evitei reler os meus textos depois de publicados, por ter certeza de que, ao fazê-lo, iria desgostar de alguma passagem e desejaria removê-la ou reescrevê-la. E por que isso? Porque nós somos humanos e nos modificamos a cada dia em função do que lemos, ouvimos ou vemos. Somos influenciáveis, para o bem ou para o mal, evoluindo ou regredindo.
Mas eis que, sem nenhuma razão aparente, me vi diante do livro que publiquei como e-book, na Amazon-Kindle, em junho de 2021, escrito em plena pandemia e intitulado “Imodestas Reflexões”. Feito para registrar os sentimentos e experiências vividas naqueles sombrios dias de total isolamento social, o livro tornou-se uma obra muito datada, como tem que ser qualquer registro histórico.
Despertado por uma curiosidade um tanto masoquista, e contrariando minhas convicções, fui reler o que escrevi desejoso de reanalisar aqueles momentos dolorosos com a visão distanciada pelo tempo. Percebi duas coisas. A primeira foi que eu pouco mudei, e como previa, desejei modificar vários trechos, e até lamentei ter escrito alguns deles. A segunda é que me descobri, de alguma forma, como vidente. Com efeito, ali reencontrei um esquecido texto que reproduzirei a seguir, pois, foi nele que previ corretamente o futuro, como comprovado pelos recentes acontecimentos políticos/policiais amplamente divulgados.
Ei-lo, tal qual foi publicado (atentem para a data!):
Rio, junho de 2021
O presidente Bolsonaro, pressionado pelo Centrão e por uma carta escrita e publicada por economistas, intelectuais e banqueiros importantes, finalmente demitiu o Chanceler Ernesto Araújo. Como é do seu feitio, colocou no lugar outro embaixador inexpressivo que, certamente, fará o Brasil reafirmar a sua atual classificação de pária da humanidade.
Mas, não ficou por aí. Se o fizesse não seria o melhor discípulo do astrólogo Olavo de Carvalho.
Não, ele, cumprindo o que vem insinuando há muito tempo foi mais longe e tentou ser ditador através de um autogolpe. Não recebendo o esperado e desejado apoio militar, imediatamente revidou e demitiu o Ministro da Defesa e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, gesto que serviu para alimentar os seus fanáticos seguidores com a certeza do seu poder.
Tudo isso me provoca fundado receio do que virá por aí.
O fato dele não ter conseguido dar o golpe agora, não quer dizer que não tentará novamente. Para mim está claríssimo que ele estudará eanalisará essa tentativa frustrada, corrigirá os pontos contrários e voltará à carga.
E mais, se não fizer agora, certamente fará se perder a eleição do próximo ano. Me parece lógico que, estrategicamente, ele não mais tentará usar as forças armadas, mas, taticamente contará como forças de apoio as já amplamente cooptadas Polícias Militares Estaduais, bem como milícias civis estimuladas pela política armamentista muito incentiva desde o seu primeiro dia de Governo.
Li, em algum lugar, que hoje já existem mais armas pesadas nas mãos da população do que nos paióis militares. Não creio ter sido outra a intenção do estímulo aos clubes de tiro e manifestações verde-amarelas.
Não me custa lembrar que o esquerdista Chaves, na Venezuela, adotou e foi exitoso com essa estratégia e até usava a mesma expressão: “O meu exército”.
E então, se algum leitor conseguiu ler este artigo até aqui haverá de concordar que (muito infelizmente!) fui adivinho — profeta — clarividente — vaticinador.
Rio, 2026
Por: Alfeu Valença – Original do Portal Tempo Real