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Ao longo da vida passamos por vários momentos que construíram em nós determinados modos de sentir. Vamos construindo, mesmo de forma inconsciente, várias arquiteturas afetivas. Assim, as crianças vão, de pouco a pouco, sendo modeladas para sentir a vida de determinadas maneiras a partir dos vínculos que as afetam. Spinoza, filósofo do século XVII, nos dirá que um indivíduo [uma criança, um jovem, um adulto, ou mesmo um outro ser da natureza] será compreendido por seu poder de afetar e de ser afetado.

Daí um indivíduo, por um lado, é um grau de potência [seus modos de ser afetivos, ou seja, como se afeta e afeta o mundo e suas relações]. Por outro lado, um indivíduo é uma singularidade, isto é, sendo constituído por inúmeras partes [seus órgãos, pensamentos, emoções etc.] que se combinam de determinadas maneiras para ganhar a sua forma singular, não existindo uma outra igual no mundo nos seus modos de ser. 

Esta pequenina introdução nos encaminha ao tema de hoje: os ópios afetivos e relacionais! Ao longo da vida poderemos viver determinados modos de ser que não mudam. Estes determinados modos de ser fazem parte daquilo que chamamos como as nossas arquiteturas afetivas [nossos modos de afetarmos e de nos afetarmos pelas situações da vida]. Muitos modos de ser podem ser negados em nós. Por vezes, não desejamos olhar para aquilo que é parte de nós. Muitas vezes, apontamos o nosso olhar para os outros e nos ocupamos em falar tantas coisas sobre eles.

No entanto, este modo de ser nos diz sobre nós mesmos: olhamos nos outros aquilo que pode fazer parte de nós. Em outros termos, o nosso grau de potência [nosso poder de afetar e de ser afetado em uma dada situação] deseja ver nos outros aquilo que não desejamos ver em nós! Esta seria uma forma de desejo reativo, ou uma força reativa [conforme Nietzsche] que mais nos desvitaliza e menos produz a exuberância da vida na relação com os outros e o mundo.

O risco é de vivermos uma vida inteira movidos por arquiteturas afetivas que mais nos enganam do que nos fazem exercer a humanidade sensível e empática em relação a nós mesmos e aos outros. Podemos criar estratégias de prazer, acreditando que estamos construindo a nossa alegria e nossa liberdade, mas, no fundo, estamos construindo uma prisão, a nossa servidão [conforme Spinoza]. Vemos tantas pessoas hiper-conectadas em celulares e seus incríveis aplicativos. Vemos tantas pessoas construindo projetos de vida que só dizem respeito aos projetos econômicos, conquistando patrimônios, carros de luxo etc. Vemos tantas pessoas acreditando que a liberdade está numa vida após a vida, deixando de viver o grande ensinamento de Cristo que é a experiência no gesto de desejar aos outros aquilo que desejamos para nós mesmos.

Vemos tantas pessoas se enganando através da vaidade, do orgulho, da ganância, do prazer em ver a tristeza ou algum infortúnio na vida de uma outra pessoa que não lhe agrada [ou mesmo na inveja daqueles que diz amar]... Estas arquiteturas afetivas são como o ópio de cada dia. Ele é tomado a cada gesto de inveja, de rancor, de orgulho, de desejo de poder, do sentimento de superioridade, no prazer em conquistar determinadas coisas que, depois de conquistadas, não possuem mais nenhum valor.

Reflexão: quais são os ópios afetivos e relacionais que utilizamos como forma de nos enganar e, por sua vez, para não olharmos o que precisa ser mudado em nós?

Afete os outros como você gostaria de ser afetado.

Abraço
Paulo-de-Tarso

Autor: Paulo de Tarso

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09/04/2018 às 17h21m

CERTEZAS E INCERTEZAS

Nos apegamos às tantas certezas... Nos agarramos com tanta força...
Uma vida feita pelo desejo das garantias... A vida feita como um trilho de trem...

Trilho que nos indica o caminho do início ao fim... Nossa sensibilidade, nossas percepções passam a ver a vida assim... Viver num trilho... Ser um trilho... Prefiro as trilhas... Aprendi isso com uma amiga... As trilhas nos abrem outros caminhos imprevistos... Viver o imprevisível... Compreender que as certezas se agarram ao ego...

Excesso de histórias, excesso de memórias... As trilhas nos levam à descoberta de outras paisagens não previstas...Ser a trilha... Contatar o imprevisível... Ser o artesão do contato não previsto... Ser o artesão de novas gestalts, de novas formas de ser em movimento... Gestaltung... nossas formas de existência na dimensão infinitiva do acontecimento... Ser verbo... Contatar a musicalidade das nossas formas tão incertas de ser... Se abrir às virtualidades do presente... Caminhar nas superfícies dos instantes fugazes... Música, poesia, filosofia... elas nos salvam dos trilhos para sermos trilhas ... Ser... simplesmente ser o fluxo paradoxal dos caminhos tão incertos da vida!

Como viver a vida em meio às tantas certezas? Como viver uma vida singular, uma vida que seja construída por desejos singulares? Como se desviar dos conceitos, projetos e tantos ideais já preestabelecidos e organizados para que possamos consumi-los? Cristalizamos os nossos modos de compreender a vida seguindo as convenções, ao que nos é transmitido como os caminhos mais certos e certeiros para nossas vidas. Construir o caminho de cada dia, construir o caminho para encontros vitalizadores com as pessoas será desenvolver as capacidades de fazer contato. Uma qualidade de contato consigo, com um mundo imaterial que nos habita. Uma qualidade de contato sensível onde saímos da condição de ovelhas que pastam pelos caminhos que seguimos cegamente. Num instante acreditamos que uma decisão é a mais acertada. Num outro instante após, sentimos que aquela crença não era tão verdadeira... podemos pensar de outras maneiras aquela situação. 

A sabedoria do tempo. Quando fazemos contato com as nossas certezas e percebemos que estas mais nos agarram ao desejo do controle, ao desejo de não viver as incertezas, ao desejo de medir a vida através de réguas, de ideias que mais nos distanciam do viver... sentimos que a vida está passando e não nos ocupamos com ela... nos ocupamos com outras coisas nas quais acreditamos ser o sentido de viver. Mas, qual é o sentido de viver? Qual é a certeza que podemos ter em nossas escolhas que, em muitas ocasiões futuras, são modificadas, transformadas? 

Viver a paradoxal experiência das incertas certezas. Viver a paradoxal vivência de que podemos rever os nossos conceitos, nossas decisões, nossas crenças, nossos valores... mas, precisaremos ter a coragem e a grande virtude [como uma grande capacidade, no sentido da filosofia de Spinoza] de desenvolvermos uma ciência afetiva, uma ciência dos nossos modos de contatar as nossas emoções. Estas não nascem do nada. Elas nascem do jogo de afetações permanente com o mundo. Elas nascem do mundo que está em nossas memórias, em nossas recordações, em nossas marcas históricas, em nossos desejos, em nossos sonhos, em nossos projetos de vida, em nossas ilusões, em nossas desilusões. 

Desenvolver a virtude [ou a essência singular e sempre em ato] de contatar quais formas de ser aparecem em formas de emoções a cada contato [quer seja com uma lembrança, quer seja com uma situação aqui e agora] será se encontrar com partes que fazem parte de uma multidão de partes que nos explicam... que nos compõem.

Compreender as emoções: caminho para superarmos o desejo das certezas.

Abraços,
Paulo-de-Tarso  



Autor: Paulo de Tarso

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03/04/2018 às 15h15m

A arte da compreensão

Como compreender as diferenças? Quais são as nossas tolerâncias frente ao desconhecido, àquilo que é estrangeiro aos nossos valores e sistemas de crenças? Os preconceitos são gerados por tudo aquilo que possa diferir de nossos pontos de vista. Ao longo da história da humanidade vemos que as inúmeras guerras, mesmo aquelas travestidas e nomeadas como ‘Guerras Santas’ e as tantas outras guerras que atravessaram o século XX e ainda faz correr sangue, dor e tristezas pelo planeta no século XXI, traz nas suas entranhas o preconceito, o desejo de poder sobre os outros, as outras culturas, o desejo de submeter os outros e as outras culturas aos seus pontos de vista. A ambição, a inveja, o orgulho, a vaidade movem os corações e as mentes daqueles que cultivam guerras e só fazem deteriorar a vida no planeta!

No entanto, existem aqueles que desejam compreender os outros modos de vida, respeitando-os! Compreender com a potência do pensar e do sentir. Compreender outros mundos, outras maneiras de ser fazendo a aliança e a comunhão entre a potência de refletir e a potência de se aproximar de outras superfícies existenciais distintas das nossas. Assim, as superfícies de pertencimento transcultural se tece! Estas são as superfícies onde somos tocados pelas diferentes formas de ver e sentir o mundo. São superfícies afetivas, onde somos tocados por outros modos de ver a vida e, com efeito, tocamos os outros mundos com os nossos modos de viver! Esta composição afetiva se dá pela abertura entre os mundos. Quando nos abrimos para compreender como os outros se fazem, pensam a vida, constroem seus espaços sociais, culturais e religiosos, passamos a integrar aquilo que tão diferente [pelo menos uma pequena parte] em nossos mundos.

A arte de compreender... Este é o amor pela vida e por tudo o que existe! Compreender é a arte de uma filosofia de vida onde podemos integrar outros mundos aos nossos. Do mesmo modo como podemos nos alimentar crescendo e vitalizando o nosso corpo com alimentos nutritivos, podemos, por sua vez, encontrar em outras culturas, em outras crenças, em outros modos de viver, a novidade que poderá fazer crescer a nossa existência, vitalizando-a!

Somente pela novidade é que a nossa existência pode crescer, se complexificando e saindo dos vícios, das cristalizações, dos preconceitos e julgamentos nos quais e pelos quais nos aprisionamos. 

O amor em compreender a vida é um dos grandes objetivos da filosofia de Spinoza, filósofo do século XVII! Filosofia de um amor pela vida, de uma alegria que é conquistada pelo aumento de potência, de compreensão dos outros modos de vida. Amor em conhecer outros modos existentes: será sempre antes se esforçar em se aproximar de outras pessoas, evitando-se os preconceitos e os julgamentos. Compreender é se aproximar. Daí o grande exercício para a contemporaneidade é a abertura às diferenças. Desenvolver as capacidades nas crianças, nos jovens, nos adultos em compor comunidades afetivas de onde pode-se extrair práticas mais sensíveis e próximas entre as pessoas na família, nas relações de vizinhança, nas relações comunitárias, na cidade... pelo país... pelo planeta! 

O amor em compreender o outro é o esforço em se evitar o caminho mais fácil que é dizer: "isto não me pertence". A humanidade vem reinscrevendo esta lógica durante séculos. Dizer "isto não me pertence" será educar os sentidos, as percepções, os modos de sentir, pensar e agir voltados à indiferença, à insignificância, afirmando que o que somente importa é a vida voltada a si mesmo, ao seu grupo, à sua religião, ao seu partido político e ponto final.

Amar a vida será, por conseguinte, desenvolver a capacidade de se aproximar daqueles que mais detestamos, buscando compreender seus mundos e como eles se constituíram ao longo das suas vidas. A complexão afetiva dos seus mundos só pode ser explicada pela potência do entendimento, da proximidade, a partir de uma superfície onde nos deixamos tocar por seus pontos de vista, sem rigidez, sem repulsão, mas, sim, pelo toque sensível e pelo respeito que é o de ‘amar as diferenças’.

Abraços,

Paulo-de-Tarso

Autor: Paulo de Tarso

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28/03/2018 às 16h35m

Coexistência

Por vezes escuto das pessoas que me procuram: "doutor quero encontrar o meu EU". Eu deixo a pessoa falar um pouco mais sobre este desejo, buscando conhecer qual é o desejo de encontrar uma imagem de si, única e, talvez, imutável. Depois de um tempo eu começo a refletir com elas da seguinte forma: "como você se vê quando se encontra com alguém que vitaliza a tua vida? Como você se sente quando alguém diminui a vitalidade da tua vida?". Em geral, as pessoas respondem que sentem alegria, no primeiro caso e, tristezas, no segundo caso. 

Isso pode parecer banal ou muito simples, mas, a vida é tecida por encontros que nos vitalizam ou nos desvitalizam o tempo todo. Com o tempo as pessoas que me procuram começam a compreender que a vida pessoal é o efeito dos encontros de toda uma vida, ou seja, nós podemos nos compreender a partir da qualidade dos encontros que tecemos a cada instante. Daí, podemos compreender como compomos as nossas formas de fazer contato com as pessoas, quer seja na relação familiar, amorosa, nas relações de trabalho, na relação com os outros seres da natureza.

Compreender as nossas formas de fazer contato com o mundo e com os outros nos permite conhecer as nossas capacidades afetivas, ou seja, como nos afetamos e afetamos este mesmo mundo no qual vivemos. Decorre daí a complexidade da nossa subjetividade, ou seja, dos nossos modos de sentir, pensar e agir. Spinoza, filósofo do século XVII, nos dirá que existirão igualmente tantos afetos e emoções quanto o número de objetos que nos afetam. E mesmo um só objeto nos afetará de inúmeras maneiras e de infinitos modos. 

Assim, o nosso mundo afetivo poderá ser compreendido pelos modos nos quais e pelos quais somos afetados pelo mundo. Compreender as maneiras como somos afetados por uma dada situação será conhecer as nossas potências, ou seja, as nossas capacidades de nos compormos de maneira vitalizada ou desvitalizada a esta mesma situação. Poderemos nos perguntar: "como esta pessoa me afeta? O que há de comum entre nós? O que há de diferenças entre nossos modos de pensar, sentir a vida e de agir no mundo? O que nos une? O que nos distancia? Como produzo alegrias nela? Como ela produz alegrias em mim? Quais são os meus modos de potencializar a sua vida? Como ela despotencializa a minha vida?"
Somos filhos dos nossos encontros! Como assim? Nós trazemos em nós as imagens dos encontros com as inúmeras pessoas pelas quais fomos tocados em nossas vidas. Ao fecharmos os olhos podemos ter a presença de inúmeras situações e pessoas que convivemos. Esta presença pode ser ativada por uma música, pelo "perfume" de um bolo delicioso, pelo cheiro de um café, pela imagem de um entardecer e por tantos outros afetos do mundo. Assim nós somos filhos dos nossos encontros. Trazemos em nós a presença de tantas pessoas, as palavras de tantas pessoas, traduzindo estas palavras e estas presenças em nossos modos singulares de ser. 

Como o corpo precisa de inúmeros alimentos de natureza diversa para se compor com as diversas partes deste mesmo corpo, a mente precisa de alimentos de natureza diversa para vitalizá-lo e para ampliar a sua perspectiva de vida. Um dos grandes alimentos para a nossa mente é o encontro com pessoas de diferentes naturezas, pois, estas podem nos alimentar com seus mundos, com seus pontos de vista que poderão, em maior ou menor grau, ampliar os nossos mundos. Daí somos seres de coexistência: ao invés de dizer "EU" existo, poderemos dizer "Eu" coexisto, pois trago como a presença de tantas pessoas significativas que me são úteis para explicar a minha vida, a minha história, os modos como fiz meus contatos, como estes foram feitos com alegrias ou com tristezas, o quanto eles ampliaram ou restringiram de algum modo a minha vida. Assim podemos dizer que nossos modos de ser foram constituídos ao longo de uma vida a partir dos encontros que nos afetaram e que, de algum modo, ainda nos afetam, mesmo sem sabermos.
Abraços,
Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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19/03/2018 às 18h34m

Paixão, Desejo e Afeto

O que é o desejo? O que é o afeto? O que é a paixão? Cada um conhece os  seus? Cada um consegue governar os seus? Você conhece os seus? Destacarei, inicialmente, cada um destes elementos - companheiros da nossa viagem de vida - os quais nos acompanham desde tempos longínquos.
         
Colocarei em relevo o conceito de desejo: todas as situações, acontecimentos, a que cada um tende, se interessa e, por seu turno, tiver consciência, poderá ser compreendido como desejo. Claro que existem desejos inconscientes - falo ( e neste falar posso falar de forma impulsiva, ou ter atos falhos); me movimento ( quando ando, quando minha mão toca o teclado do computador, não tenho consciência total dos meus movimentos - é um ato consciente com partes inconscientes); produzo imagens na mente ( não tenho um controle total sobre os sonhos, sobre as imagens que nascem na minha mente - em parte, a produção destas, faz parte de uma usina do inconsciente). Existe uma aliança muito interessante nos processos dos desejos conscientes e inconscientes: posso saber que quero e me inclino para uma coisa ( pessoa, objeto, acontecimento), mas posso também não ter consciência sobre os motivos reais que me impulsionam nesta direção. Posso me envolver com alguém: encontro do qual jorram sentimentos de alegria. Posso ficar agarrado à ideia desta pessoa, nascendo em mim os sentimentos alegres sem, no entanto, compreender quais os elementos constituintes desta alegria: aqui reside o universo das paixões.
         
Ao contrário do que é disseminado nas crenças do senso comum, o sentido conferido à "paixão", não fica apenas restrito aos acontecimentos ligados aos envolvimentos sentimentais. Poderemos conferir um outro sentido ao termo paixão, mudando, em certo grau, a sua compreensão. Por paixão compreenderemos os pensamentos, ideias, sentimentos, sensações dos quais não temos um entendimento ou clareza. Por esta perspectiva, estaremos sujeitos às paixões, na medida de que nos deparamos o tempo todo com as situações do mundo que nos afeta. Nesta instância, estaremos sendo afetados por inúmeros encontros com pessoas, notícias, situações e acontecimentos, dos quais proliferarão em nós pensamentos confusos e sentimentos conturbados. As paixões ( ideias, pensamentos e sentimentos confusos) nascem em cada um, a cada instante: quando agimos no impulso; quando falamos o que não deveríamos falar; quando sentimos tristezas e não compreendemos as suas causas; quando não conseguimos nos desembaraçar de uma situação sentimental, profissional, familiar - enfim, quando não compreendemos alguma situação em que estejamos ou não envolvidos.
         
O território das paixões, vem trazer à luz o solo por onde os afetos escorrerão. Os afetos poderão, nesta esfera, serem compreendidos, por um lado, como os sentimentos de alegria e tristeza e, por outro, como as sensações agradáveis ou desagradáveis que fluem em nós. Num dado instante, quando nos lembramos de algo que vivemos, nos deparamos com sensações de aperto no peito; a face contraída; a respiração contida. A sensação é de que o corpo está reduzindo. Aqui, as lembranças geraram afetos de vitalidade, isto é, nasceram do encontro com as imagens passadas - articuladas com as imagens atuais: sensações corporais percebidas no seu todo como um "encolhimento". O sentimento derivado desta sensação é o de tristeza: os elementos sentimentais desta tristeza podem estar ligados aos filhos desta - sentimentos de ressentimentos; raiva; irritação; decepção e outros.
         
Esta genética afetiva acena sobre a compreensão da qual podemos nos servir: organizar; buscar as relações comuns e dissonantes - distinções e alianças: entrar no mundo das ações. Neste universo, quando vamos aprendendo a cada instante a formar relações entre o que sinto, penso e desejo, começamos a desejar a vida, saindo das paixões e aprendendo a governar os nossos afetos. Parece fácil o que descrevi acima, mas tudo o que for precioso será conquistado e com esforço: assim valorizamos as coisas realmente importantes e úteis para cada um de nós.

Abraço forte,

Autor: Paulo de Tarso

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14/03/2018 às 11h29m

O inesperado

A vida nos coloca em situações inesperadas! Por vezes, a vida toca a porta de nossa existência e não nos pergunta se estamos prontos para viver o que ela nos reserva. Em meio ao que a vida nos convida a viver, podemos ter que parar inúmeras atividades que antes executávamos meio que no automático. Trabalhar, ir ao supermercado, fazer ginástica, estudar, passear, ir numa festa, ir à igreja, fazer tantas coisas que, ao longo do tempo, fazemos sem perceber o valor delas.

Quando precisamos parar tudo o que estávamos fazendo antes [por inúmeros motivos] a vida nos revela quem estará conosco nesta nova jornada! Sim, descobriremos quem estará conosco e ao nosso lado para compreender este momento! Podemos nos deparar com a descoberta de pessoas que antes não levaríamos em conta numa situação como esta. Outras, pelas quais criamos tantas expectativas, podem se revelar de outras maneiras. 

Assim, seguindo os nossos princípios da Afetologia, descobriremos as capacidades da empatia, da proximidade, do afastamento, das ressonâncias, da compreensão, de incompreensão, de tolerância, de intolerância, de paciência e de impaciência frente ao nosso modo de ser que a vida nos convida a viver num dado momento.

Claro, as experiências de vida nos dizem e nos ensinam que o melhor não será criar expectativas sobre as pessoas, não esperando nada delas! Contudo, por mais que exercitemos este ponto de vista metodológico sobre nossos modos de nos relacionarmos com os outros, sempre fica uma pontinha de que poderemos contar com as pessoas que consideramos.

Poderemos nos encontrar nestas situações que a vida nos convida a viver com a experiência da decepção, da frustração que podem fazer brotar em nós a nossa capacidade de ressentir... sim, passamos a viver o ressentimento que tem como origem o afeto de tristeza movido pelas imagens e ideias de que uma pessoa [ou pessoas] não correspondera ao que pensávamos e desejávamos como ela seria conosco!

Bem, o ressentimento é um estado afetivo, ou seja, é um modo de ser que nasce de determinadas situações onde somos afetados e que diminui a nossa potência de existir [diminuindo a nossa vitalidade]. Este estado afetivo movimenta a nossa imaginação, produzindo imagens de uma certa revolta, pois a pessoa não correspondera àquilo que desejávamos! Uma mistura de imagens, de ideias confusas e de emoções tristes nos envolvem de tal modo nos paralisando, nos fixando, nos cristalizando neste modo de ser.

Daí podemos encontrar um dos nossos modos de ser que nasce da ilusão de que poderemos ser correspondidos pelas pessoas que criámos expectativas durante a vida. O nosso ponto de vista, nestas ocasiões, é um grande egocentrismo, pois, nos colocamos no centro das coisas, no centro de todos, no centro do mundo, esperando que tudo e todos venham nos compreender! 

A vida bate à porta para nos ensinar sobre as coisas que precisamos viver para aumentar o nosso conhecimento sobre nós mesmos e sobre os outros. A vida nos diz a partir destas experiências que podemos aumentar o grau de conhecimento sobre nós [compreendendo como nos fixamos em determinados modos de ser, em determinadas arquiteturas emocionais, imaginativas e ideativas] desejando que tudo e todos venham nos agradar... ou que possamos afirmar que a nossa existência não é mais importante que a de uma outra pessoa! A vida bate à nossa porta para nos retirar das nossas manias, dos nossos hábitos, dos nossos costumes [que inventamos a cada instante, a cada dia] de nos sentirmos o centro de tudo, o centro do mundo, o centro do universo!

Afete os outros como você gostaria de ser afetado! 
Abraço,

Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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05/03/2018 às 17h46m

As temporalidades do viver

Vivemos a vida, vivendo um instante após o outro, uma hora após a outra, um dia após o outro, semanas e anos. Por vezes, parece que estamos vivendo uma viagem no tempo. As imagens do passado penetram o presente. Passo a ser estas imagens. Perco o que se passa aqui-e-agora diante de mim. Minha consciência está ligada às imagens daquilo que já aconteceu. Meu corpo parece estar revivendo tudo o que já passou. 

Quando ficamos envelopados pelas imagens dos tempos-vividos [imagens passadas] e dos tempos-ainda-por-viver [imagens futuras] passamos a ser governados por seus ritmos. Ritmos que dão movimentos às imagens. Ritmos que contribuem na formação destas imagens. Podemos viver os ritmos do tempo de Cronos. Ele como o deus de uma temporalidade que imprime em nossa mente e em nosso corpo o sentido histórico. Assim como uma linha do tempo, Cronos nos fala do passado [tempo-vivido] e do futuro [tempo-por-viver]. Cronos é a linha do tempo que invade o nosso presente. Preenchemos o nosso presente com uma rítmica temporal das imagens passadas e futuras.

Como viver o presente? Como fluir com o presente? Os gregos precisavam inventar um deus que pudesse ajudar os homens a viver os fluxos de um presente que possui uma grande vitalidade. Mas, foi o grande filósofo Heráclito que deu uma forma filosófica para a dimensão de um presente que flui. Nós podemos encontrar no fragmento 52 de Heráclito a sua inspiração para pensar a dimensão de um tempo que flui. Ele chamará o tempo como ‘Aion’. Aion que se relaciona com a experiência das crianças a brincar. "Aion é uma criança que brinca, seu reino é o de uma criança". Heráclito vem apresentar os ritmos de um tempo que não é linear como o de Cronos. Para além da vida cronometrada, vivida como uma linha reta, Aion vem nos convidar à rítmica de um presente que se tece pelo devir. Devir-criança, afeto-criança, se permitir viver o imprevisto, as incertezas. 

As crianças são inventoras do presente. Elas não param de inventá-lo reinventando suas vidas. Daí Aion ser a rítmica de um presente flui. No entanto, quando tentamos apreendê-lo ele nos escapa. Ele é o fluxo de vida que traz os rastros do passado e os traços de um futuro imediato. Passado imediato e futuro imediato vividos no fluxo de um presente que flui. Aion é o cometa que segue em frente e que deixa seus rastros. 

Por sua vez, os gregos inventaram mais uma figura conceitual, mais, um deus do tempo. Kairós: este pode ser compreendido através das experiências onde percebemos a boa ocasião para tomar decisões. Sentimos com o corpo que é ora de se falar algo para os outros. Sentimos com o corpo que é ora de tomar tal decisão. Vemos passar diante de nós o momento oportuno para darmos direções em nossas vidas. Daí Kairós ser a experiência de uma rítmica temporal que nos orienta e nos dá indicações para onde seguirmos. 

Uma vida potente é aquela que afirma as três dimensões do tempo. Afirmar que vivemos as linhas do tempo de Cronos. Que a sociedade se faz através destas linhas. Linhas temporais das organizações. Mas, também linhas temporais que nos dizem sobre as tradições, sobre os valores e crenças, sobre os hábitos de uma sociedade e de uma cultura. Somos tecidos pelas linhas de Cronos... Por sua vez, podemos tecer o presente de nossa história pelas linhas de Aion. Se permitir viver as novidades, viver as diferenças, se aproximar àquilo que é estrangeiro aos nossos territórios de vida será se abrir à temporalidade das invenções. Precisaremos inventar novas formas de lidar com o que se passa diante de nós. Precisaremos nos abrir para o fluxo das incertezas que desafiam nossas certezas, nossas verdades, nossas visões de mundo já dadas. Daí será preciso viver a rítmica temporal de Aion. Se permitir se transformar com os diferentes.

Claro, precisaremos tomar decisões. Precisaremos nos ajustar ao que se passa diante de nós. Precisaremos nos orientar para dar sentidos e direções à vida. Esta é a experiência maravilhosa de nos encontrarmos com a temporalidade de Kairós.

Aproveite a vida! Experimente o presente em suas várias dimensões.

Abraço,
Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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01/03/2018 às 16h10m

A construção da felicidade

Numa conversa entre a filha e seu pai o tema sobre a felicidade aparece. Ela morando em Oslo, na Noruega, lá no outro lado do mundo. Ele morando no Brasil. Ela vivendo o momento da tarde, ele vivendo a manhã. Os dois ao mesmo tempo pensando sobre a vida feliz e como construí-la. E o tema se desenrola da seguinte forma.

Acreditar numa vida feliz, tendo como projeto uma vida feliz pode ser uma utopia, mas, pode ser realizada. O tema da felicidade foi tratado por todas as filosofias antigas da Grécia Clássica. Estas filosofias eram eudemonistas, ou seja, buscavam a plena realização de uma vida em nome da felicidade. 

Hoje vemos que inúmeros projetos de vida se ligam não às filosofias antigas, mas, sim, ao ponto de vista onde consumir é a grande meta e a grande realização. Inúmeras pessoas, famílias do mundo inteiro seguem os ideais do mercado que consegue, a cada dia, fixar os desejos das pessoas nos seus inúmeros produtos, serviços e objetos. Como criancinhas que precisam de um novo brinquedinho para saciar seus apetites, os adultos também fixam seus desejos em inúmeras coisas que vão surgindo no mercado. Temos aqui o encontro da dita felicidade nas mais variadas formas de consumo. 

Assim as pessoas vão se ocupando em trabalhar cada vez mais para, por conseguinte, consumir cada vez mais. A filosofia epicurista já nos ensinara sobre o encontro da boa medida. Encontrar a boa medida em tudo: naquilo que se come, naquilo que se bebe, naquilo que se fala, naquilo que se pensa, naquilo que se imagina, naquilo que se compra, naquilo que acreditamos ser bom, mas que, no fundo, vem se tornar uma prisão para todos nós. Assim, encontrar a boa medida em tudo que fazemos na vida é um bom caminho para encontrarmos a ‘tal felicidade’, pois, desta forma não a encontraremos em objetos exteriores, mas, sim, na nossa atitude permanente de produzir bons encontros.

E foi um outro filósofo, só que este no século XVII, que nos dá um toque sobre como construir uma vida alegre. Spinoza nos dirá que, na medida em que não vivemos uma vida movida por sentimentos e ideias passivas, ou seja, quando não vivemos uma vida onde os sentimentos e ideias nos escravizam - pois, muitas vezes somos tomados por eles, somos escravizados por eles - é que nós temos a chance de encontrar a alegria de viver. Conhecer as nossas emoções, conhecer os motivos pelos quais nos ligamos a determinadas situações, pessoas, lugares, projetos, desejos, sonhos, imaginações, ideias, sentimentos, será poder conhecer como nós compomos a nossa vida junto com os outros. Este é um modo de conhecer as nossas formas de desejar as coisas da vida, conhecendo através da aliança entre as emoções e a razão. Seria o que filósofo do século XVIII chamado Vauvenargues conceituará como ‘Pensar com o Coração’.

Talvez as pessoas poderiam pensar menos em plásticas pelo corpo todo, em fazer academia somente para ter um corpinho bonito, somente, para aparecer para os outros, e tantas e tantas outras coisas que são feitas não para si mesmo, de verdade. Talvez dedicar um tempo por dia para realmente pensar a sua posição na vida e descobrir os reais motivos que fazem com que desejem estes modos de viver seja uma forma de cada um encontrar a tal ‘felicidade’ no modo como se conecta às pessoas, ao mundo e, principalmente, à si mesma, saindo da vidinha artificial vendida e consumida por milhões de pessoas cada instante, a cada segundo e, muitas vezes, por uma vida inteira. Já que plástica para o cérebro ainda não foi inventado, o trabalho de construção da felicidade é árduo mesmo: é o trabalho e o esforço de perseverar na existência para não ser escravo do mercado, dos outros, dos projetos de vida prontos e de tantas outras escravidões.

Abraço fraterno,

Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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19/02/2018 às 12h13m

A vida e seus valores

Nascemos numa determinada cultura, numa determinada sociedade. Um bebê quando nasce ele vem ao mundo sem saber o seu nome, sem saber o nome dos seus pais, sobre a sua cultura, sobre a sua sociedade. Mas, de pouco a pouco ele vai sendo culturalizado pelos hábitos, pelos costumes, pela visão de mundo de sua sociedade.

Com o tempo ele saberá qual é o seu nome, saberá o nome dos seus pais. E, de pouco a pouco, ele será também culturalizado pela educação nas escolas e em outras instituições. Com poucos anos de vida, quando estiver com os seus seis anos, começará a entrar no mundo dos signos dos adultos, ou seja, aprenderá a ler e a escrever. Grande descoberta que o levará a entrar no mundo dos livros, descobrindo outras culturas, descobrindo novas paisagens de conhecimentos. No entanto, a partir desta idade o tempo para outras descobertas começam a ser pouco destinado: o brincar, a imaginação criativa, construindo atividades com seus coleguinhas. Com o tempo, a maior parte do tempo será destinada a se construir para "ser alguém na vida". E, assim, escutará de todos para estudar para "ser alguém na vida".

Sempre desconfiei desta frase desde pequeno. Vi tantas pessoas que se realizaram profissionalmente, mas, que pouco se realizaram em suas vidas. Vi tantas pessoas com tantos saberes, tantos conhecimentos e que pouco aplicaram em suas vidas. 

O ato de conhecer, o desejo de aprender, o apetite em descobrir o mundo é uma potência que vem desde criança. Este desejo de descobrir coisas novas, de explorar o mundo, de arregalar os olhos com curiosidade é coisa de criança. Poderíamos afirmar que esta é a potência, a capacidade de "criançar", isto é, de ser movido pelo desejo de dar movimento à vida pelo desejo de vida que nos habita quando saímos de nossos condicionamentos. Krishnamurti, filósofo indiano do século XX, nos diz que somos condicionados desde pequenos a ver o mundo, a sentir o mundo, a nos ver, a nos sentir, a ver os outros e sentir os outros de maneiras determinadas.

Somos determinados, somos condicionados a entender a vida como se ela fosse uma linha de trem. Precisamos fazer isso para alcançar aquilo. Precisamos alcançar aquilo para ser algo de importante. Mas, poderemos nos perguntar o que é realmente importante para nós! O que é realmente importante em sua vida?! Realizar-se no trabalho, ganhar muito dinheiro, realmente explica a seu sentido de existir nesta vida?Podemos ter vários diplomas, podemos ser graduados em tal profissão, podemos ter tantos reconhecimentos, mas, o que vale realmente na vida?

Conheço pessoas muito interessantes! Estas pessoas não deixaram a vaidade, o orgulho, a ganância, o desejo de competição com os outros tomarem conta de suas vidas. Elas ainda se permitem "criançar"! Elas se permitem viver a vida experimentando os afetos de descoberta, de se envolver com pessoas de forma sensível, de conhecer pessoas diferentes, de descobrir que o grande valor da vida são as pessoas!

Elas são a nossa maior riqueza! Sem as pessoas descobrimos muito pouco de nós. Com elas podemos nos sentir mais vivos, sentindo a vida com mais vitalidade, pois, um diálogo sincero, uma escuta sincera pode ser de um valor eterno: quais são as pessoas mais importantes da sua vida? Deixe vir à sua mente, feche os olhos e se permita sentir quais são as pessoas que você realmente pode contar nos momentos mais importantes, não somente nos momentos difíceis!

Estas imagens fazem parte de um grande tesouro que você tem depositado em um lugar que aquece a vida dentro de você. Este lugar não guarda palavras lidas em textos, livros, como a nossa memória. Este lugar guarda os signos, os sinais daquilo que não se pega com as mãos. Este é o lugar que guarda todas as nossas emoções nascidos dos nossos encontros. Este lugar é o lugar infinito do coração. 

Aproveite o dia como se fosse a primeira vez!
Abraço,
Paulo-de-Tarso


Autor: Paulo de Tarso

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15/02/2018 às 12h00m

Sentir o instante

Não ter tempo de sentir... E ela não tinha tempo de sentir... Atendendo uma pessoa após a outra, ela atendia seus pacientes a cada dez minutos. A sua chefia dizia: "é preciso produzir mais e mais...". Ela percebeu que a cada dez minutos se deparava com vidas tão complexas, com tantas situações... Mas o tempo destinado a cada pessoa era tão pequeno. Seu coração começava a palpitar quando percebia que só faltavam dois minutos e era preciso ir se despedindo da pessoa à sua frente. Uma fila enorme esperava do lado de fora. Ela percebia que a pessoa diante dela queria falar mais. Mas o tempo destinado era o de dez minutos para cada pessoa.

E assim ela se viciou em atender a cada dez minutos. Ela nem precisava mais de relógio para marcar o tempo do atendimento. O tempo não era para sentir, mas, sim, era o tempo de produzir. Do seu vício de atender cada pessoa a cada dez minutos ela percebeu que o tempo em casa também tinha mudado. A atenção que antes era maior para os filhos já não era tanta... O tempo da produção começara a ser deslocado para outras situações da sua vida. Ela percebeu que desaprendera a sentir... O contato com as pessoas tornara-se frio e sem emoção. 

Um dia seu filho lhe pediu atenção, mas ela estava fazendo seus relatórios do trabalho. Ela leva sempre o trabalho para casa... De forma ríspida responde ao filho: "agora eu não tenho tempo... depois eu vejo isso com você". O marido de longe percebe a cena e acolhe o filho. A relação com seu marido já foi tão boa, mas trabalhar fora, dar conta de casa e ainda ter que atender uma fila imensa de pacientes no trabalho foi desgastando a relação. A paixão que antes era imensa se transformou numa outra coisa qualquer e ela nem mesmo sabe explicar. "Já nem sei o que sinto por meu marido...". Sentir já não era mais uma qualidade tão dela. O vício em marcar a vida num tempo tão cronometrado passou a ser a sua forma tão natural de ser.

Outro dia de trabalho. Em meio aos seus prontuários ela solicita uma outra paciente para entrar. A pessoa senta na cadeira a frente dela. Ela olha para o computador com todas as anotações da paciente, olhando também para o prontuário. A paciente pergunta: "você é feliz trabalhando da maneira que você trabalha?". Ela meio atônita com a pergunta fica em silêncio, meio sem saber o que falar. A paciente continua: "você sempre atende olhando para papéis, para a tela do computador... você não olha pra mim...". Ela pede desculpas, dando uma série de justificativas, fala sobre o tempo de atendimento que é limitado e outras coisas burocráticas. A paciente lhe diz: "que bom... pela primeira vez você olha pra mim e tenta sentir o que estou falando...".

Elas se despedem e uma outra pessoa é chamada a entrar na sala. Ela rapidamente fecha o seu computador e tenta criar um outro caminho para receber a próxima pessoa. "Bom dia", ela diz de forma expansiva. A paciente olhou meio estranho para ela e pergunta: "está tudo bem com a senhora doutora?!". Ela pergunta porque e a paciente responde: "sei lá... a senhora está diferente de antes...". Ela percebe que é possível fazer diferente com tão pouco... É possível transformar uma paisagem, um ambiente com tão pouco...

O dia de trabalho chega ao fim. Ela chega em casa e a primeira coisa que faz é dar tempo ao tempo. Ela vai tomar um banho demorado e sentir a água descer pela nuca. Coisa que ela não faz há tanto tempo. Fazer as coisas de forma mecânica foi a forma encontrada para dar conta de tantas coisas. Desaprender a sentir é o método que precisou aprender para estar neste mundo da produção, da competitividade, do reconhecimento pelas metas cumpridas. No entanto, o prejuízo afetivo vai se acumulando de pouco a pouco. Filho, marido, pessoas que ela atendia de forma padronizada, tudo isso fazendo da sua vida uma vida de isopor. 

Ela descobriu que a vida pode ser vivida de outras maneiras. Ela já sabia disso... mas esquecera. Agora é uma questão de sentir mais uma vez os encontros, se sentir parte deles e não deixar de viver o tempo de sentir as coisas, as pessoas, o mundo à sua volta, as coisas simples da vida.

Abraço

Paulo de Tarso 

Autor: Paulo de Tarso

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